Mel É Vegano? Tudo Sobre As Abelhas E O Seu Impacto No Planeta

Mel É Vegano? Tudo Sobre As Abelhas E O Seu Impacto No Planeta

Quando se fala em vegetarianismo pensa-se na exclusão da carne/peixe, lacticínios e ovos.

Quem segue uma alimentação vegetariana estrita não consome animais nem seus derivados, o que significa que todos os derivados são excluídos e não apenas o leite e ovos.

Pode cair em esquecimento, que outros derivados como o mel são produzidos por animais e são excluídos da dieta vegana. Não é por ser produzido por um pequeno inseto que o mel é de menor importância. A exclusão do mel é tão importante como a de qualquer outro derivado.

Existe um equívoco comum de que as abelhas produzem o mel especialmente para os humanos consumirem. Assim sendo, o propósito da existência das abelhas seria trabalhar toda a sua vida como escravas, a percorrer milhares de quilómetros para construírem o nosso manjar. Só porque sim.

Soa absurdo, não?

Esta conceção não poderia estar mais longe da verdade.

Neste artigo explico a razão pela qual o mel não é vegano, mostro como a vida das abelhas e outros insetos estão ameaçadas e como isso impacta negativamente o planeta.

Mel De Abelha É Vegano?

O mel é composto principalmente por açúcares (glicose e frutose) e é um líquido espesso de cor âmbar ou dourada. É produzido pelas abelhas, sendo criado a partir do néctar extraído de plantas, como flores.

O mel é produzido pelas abelhas e é o seu alimento, por isso, não é vegano.

A fonte de energia das abelhas é o mel, sem ele, elas morreriam de fome. O mel também fornece nutrientes essenciais durante o mau tempo e os meses de inverno.

A abelha usada na produção do mel comercial visitará até 1500 flores, produzindo apenas um décimo segundo de uma colher de chá de mel em toda a sua vida.

Do Néctar Ao Mel

Abelha a Colher Néctar

O néctar é geralmente obtido quando as abelhas fazem a polinização.

  1. As abelhas transportam o néctar na sua barriguinha, onde a enzima invertase transforma a sucrose em glicose e frutose, enquanto voam de flor em flor, até chegarem de volta à colmeia.
  2. De volta à colmeia transferem o néctar de abelha em abelha, onde mais enzimas são adicionadas cada vez que uma abelha recebe o néctar. Este processo pode prolongar-se por um período de 20 minutos, quebrando ainda mais os açúcares.
  3. De seguida, o néctar é depositado no favo de mel e tem abundância de água. As abelhas ventilam o néctar de forma a acelerar a evaporação da água e por fim selam o favo de mel que pode ser armazenado indeterminadamente. É após esta etapa que o apicultor retira o mel da colmeia.

Porque É Que As Abelhas São Tão Importantes?

Se a abelha desaparecesse da face da terra, o homem teria apenas quatro anos de vida.Albert Einstein (incerto)

O grande alvoroço em volta do mel e das abelhas existe porque além de ser um produto de origem animal, as abelhas são um inseto muito importante para a vida no planeta, incluindo a vida humana.

Poucas plantas se autorreproduzem, a maioria depende de animais, vento ou água para se reproduzir, através da polinização.

Os animais polinizadores são os insetos, pássaros, esquilos, macacos, roedores e répteis. Na Europa os polinizadores são as borboletas, abelhas, besouros, moscas das flores, traças e as vespas.

As abelhas são muito importantes para a biodiversidade, pois são o maior polinizador, sendo essenciais para uma ampla gama de plantações e plantas selvagens.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que das 100 espécies vegetais que fornecem 90% dos alimentos em todo o mundo, 71 são polinizadas por abelhas. A maioria dos cultivos na Europa depende da polinização por insetos.

Os abelhões/mamangavas são considerados os melhores polinizadores em territórios selvagens e os mais eficientes na polinização do tomate, abóbora e frutos vermelhos.

Menos abelhas significa menos biodiversidade, que se reflete tanto na natureza em si como na alimentação dos animais, incluindo os humanos.

Porque É Que As Abelhas Estão A Desaparecer?

Como já vimos, as cerca de 25 000 espécies de abelhas são importantes para a biodiversidade e essenciais para a polinização, e embora os dados sejam limitados, parece que as populações de muitas destas espécies estão em declínio.

De 1947 a 2008, a população total de abelhas dos EUA diminuiu 61%.

Nos últimos 15 anos, os apicultores têm relatado uma diminuição incomum do número de abelhas e perdas das suas colônias principalmente nos EUA e Europa. Os apicultores americanos têm perdido em média 30% das suas colônias de abelhas a cada inverno.

Não é só o número de abelhas comerciais que está a diminuir, também as abelhas selvagens estão em declínio.

Comparando com antes de 1974, atualmente existe quase 50% menos de probabilidade de ver mamangavas na América do Norte, qualquer que seja a zona.

Ainda não se compreende totalmente a razão por detrás deste declínio na população de abelhas e parece não existir uma única causa para o mesmo.

É possível que não seja apenas uma causa, mas um conjunto, e várias têm sido sugeridas, como:

  • Agricultura intensiva e uso de pesticidas

Aplicação de Pesticidas

A agricultura intensiva providencia um ambiente desfavorável às abelhas: existem menos flores , menos lugares tranquilos para construir os ninhos e muitos pesticidas.

Resíduos de pesticidas podem ser ingeridos pelas abelhas durante a colheita do néctar ou água. Em 2012, novas descobertas científicas indicaram que alguns inseticidas apresentam elevados riscos para as abelhas: neonicotinóides e fipronil.

Um estudo de 2014 publicado no Bulletin of Insectology concluiu que quando as abelhas foram expostas a imidacloprida ou clotianidina na dose de 0,73 ng/ abelha / dia por 13 semanas consecutivas, de julho a setembro de 2012, seis das doze colônias, anteriormente saudáveis, morreram e todas exibiram sintomas do distúrbio do colapso das colônias (CCD) durante os meses de inverno.

Desde o seu aparecimento em 2005/2006, o distúrbio do colapso das colônias é um fenómeno que ocorre quando a maioria das abelhas operárias da colônia desaparecem, deixando para trás a rainha, muita comida e algumas abelhas enfermeiras. A capacidade de navegação das abelhas operárias parece ficar afetada, pois as abelhas deixam a colmeia para encontrar pólen e não regressam.

Não só as abelhas estão em declínio mas também os outros polinizadores e a maioria da vida selvagem associada à agricultura, como pássaros, borboletas e besouros.

  • Fome e má nutrição das abelhas

Abelha Morta

O mel é criado pelas abelhas para ser a sua fonte perfeita de nutrição e energia. Elas alimentam-se de mel, alimentam a geração mais nova e ainda armazenam para os meses de inverno.

A indústria do mel, troca o mel por um substituto de açúcar, que é inferior para a saúde das abelhas. Sendo uma espécie que estamos a tentar proteger, não faz sentido privá-la da sua fonte alimentar ideal.

Além das más práticas industriais, a própria diminuição da biodiversidade já é um desafio, pois a perda de campos com flores silvestres traduz-se em escassez de alimento para as abelhas.

  • Vírus, ataques de patógenos e espécies invasoras

Varroa

Como exemplos existem o ácaro varroa, a vespa asiática e o pequeno besouro da colmeia.

O varroa é uma das grandes ameaças. O ácaro fixa-se às abelhas e suga o seu sangue. Quando a abelha retorna à colmeia o ácaro pode propagar-se e trazer vírus e doenças com ele.

  • Alterações ambientais

Monocultura

Os humanos não param de destruir os habitats onde geralmente as abelhas obtêm o seu alimento.

As alterações climáticas são também um fator em consideração, tendo em conta o calor e as temperaturas extremas que têm existido. Além da temperatura em si, as alterações climáticas afetam também os timings da floração e da hibernação das abelhas.

Cientistas descobriram que em regiões que se tornaram mais quentes durante a última geração, ou que tiveram variações de temperatura extremas, as mamangavas/abelhões são menos abundantes.

O Que Acontece Por Detrás Das Colmeias Comerciais

Mais uma grande preocupação é a existência de colmeias comerciais.

O transporte regular de colmeias em longas distâncias, para cuidar de pomares sazonais, desorienta as abelhas. A saúde das abelhas pode também ser prejudicada pela baixa diversidade de pólen nas monoculturas.

Fora da estação ou em trânsito, as abelhas são alimentadas com milho, xarope de uva ou soluções de frutose em substituição do mel que foi colhido.

Por vezes na criação de abelhas em grande escala, as colmeias são abatidas após a colheita do mel, pois fica mais barato do que mantê-las durante o inverno.

Como se não bastasse, a reprodução natural das abelhas é também alterada. As novas colmeias comerciais são geralmente criadas através de rainhas inseminadas artificialmente, contribuindo para a diminuição da diversidade genética. As asas da abelha rainha são cortadas para impedir que abandone a colmeia e crie uma nova noutro lugar.

Nem Todos Os Apicultores São Iguais

Apicultor

Os apicultores locais e de negócios pequenos, ficam ofendidos quando confrontados com os argumentos que mencionei anteriormente, pois a maioria faz a colheita do mel de forma mais ética e tende a preocupar-se com as abelhas.

Defendem que dão lar às abelhas, as protegem das chuvas e acontecimentos adversos e que apenas colhem o mel em excesso.

É importante perceber que as abelhas só dependem de nós hoje por nossa própria culpa.

As abelhas viviam bem sem a nossa “ajuda”, sem lhes darmos colmeias onde viver. As pobres, não têm culpa que ao longo dos anos os humanos tenham destruído o seu habitat natural e fontes de alimento naturais.

Dito isto, tenho ainda de me pronunciar relativamente ao «mel em excesso».

Dado que as abelhas não trabalham para alimentar humanos… então, porque produzem mel em «excesso»?

Sendo o mel o manjar das abelhas, dos seus filhotes e as suas reservas de inverno, o que dá direito a um humano de definir que o seu alimento está em excesso e que por isso pode ser roubado?

Não é possível definir quanto uma colmeia requer para funcionar de forma ideal. Sobre este tema as abelhas saberão mais do que nós, e o mel que achamos que está em excesso, deverá ter o seu propósito naquilo que é a vida das abelhas.

Nesta fase, proteger as abelhas, os ecossistemas e a nós próprios é a prioridade – sem esperar nada em troca.

O Que Podes Fazer Para Ajudar As Abelhas

Com esta ameaça séria à sobrevivência das abelhas e outros insetos é essencial que os órgãos governamentais tomem ação, que voltemos a dar à natureza tudo o que lhe retiramos e que sejam construídas leis conscientes e colocadas em prática o mais rápido possível.

No entanto, há sempre mudanças que cada um de nós pode fazer no seu dia a dia e na nossa casa que podem contribuir para um futuro mais risonho.

Deixo aqui algumas sugestões de coisas que podes fazer a partir do conforto do teu quintal que podem ajudar as abelhas a prosperar.

Plantar Flores Silvestres

Campos de Flores Silvestres

Uma das formas mais simples de ajudar as abelhas é semear flores silvestres nativas da tua região.

Escolhe diferentes tipos de flores, que floresçam em estações distintas e que tenham várias formas e cores, de modo a estimular a diversidade.

Oferecer Abrigo

Bug Hotel

A partir do teu quintal ou jardim podes dar abrigo às abelhas ou outros insetos através de casinhas feitas com madeira.

Podes comprar casinhas fabricadas especialmente para este efeito em lojas específicas e online ou construir a teu próprio hotel para abelhas.

A Bug Hotel produz abrigos feitos à mão no Brasil, sediada em Cotia, São Paulo.

Estes abrigos são fabricados com madeira, bamboo, porcelana fria e envernizados com geoprópolis. Apesar desta última propriedade não ser considerada vegana (também é um derivado das abelhas), a Juliana também constrói o abrigo sem este material, basta entrares em contacto. 🙂

Também na Europa é possível encontrar vários vendedores de hotéis feitos à mão como a aContreCourant, VogelvillaOriginal, WildbienenLueder.

É sempre melhor quando adquirimos produtos artesanais e de fabricantes locais invés de produtos que precisam de ser transportados desde a outra ponta do mundo.

No entanto, o impacto ambiental da nossa escolha será inferior se optarmos por construir o nosso próprio abrigo de abelhas, e se possível reutilizando materiais naturais que já tenhamos em casa, compatíveis com o objetivo e que não sejam prejudiciais às abelhas.

Não Utilizar Pesticidas

Agricultura Sustentável

A utilização intensiva de vários pesticidas parece ser uma das maiores razões que tem levado ao declínio tanto de abelhas como de outros insetos polinizadores.

Procurar formas de agricultura sustentável, utilizando plantas estrategicamente para afastar pragas e plantas acompanhantes é uma excelente opção para evitar a utilização de produtos químicos.

Por exemplo, o manjericão e o alho são bons acompanhantes para o tomate, pois é benéfico no afastamento da lagarta do tomate e pulgões, respetivamente.

Alternativas Ao Mel

O que não faltam são alternativas para substituir o uso do mel: xaropes de agave, ácer, tâmaras e melaço.

E é aqui que reside uma das maiores controvérsias.

Será o consumo destes xaropes melhor do que o consumo do mel local? Os apicultores dizem que não, muitos veganos dizem que sim.

O argumento é que os xaropes são provenientes de países muitas vezes longínquos, tendo uma grande pegada negativa associada ao seu transporte, além de serem provenientes de monoculturas que como já vimos contribuem para a diminuição da biodiversidade e afetam diretamente a população de insetos, nomeadamente das abelhas.

Por outro lado, o mel proveniente de apicultores locais, viaja pequenas distâncias e surge da colheita do mel, supostamente em excesso, que é o alimento das abelhas, produzido pelas mesmas, cuja a população está declínio.

Escolha difícil, não é?

O mel contínua a não ser um produto vegano, pois é um produto derivado das abelhas e a elas pertence.

Infelizmente os alimentos que encontramos nos supermercados vêm geralmente de outros países, outros continentes e são provenientes de produção massiva que vai destruindo o planeta.

O que podemos fazer é pensar sempre nas opções mais amigas do ambiente e se possível procurar agricultores locais e de práticas mais sustentáveis.

Dito isto, não julgo quem decida consumir mel de apicultores locais e não o/a considerarei menos vegano por isso. Trata-se de um tema complexo e por isso cada um deverá seguir o que a sua consciência ditar. 🙂

Curiosidade: As Abelhas São Inteligentes

Apesar de poderem parecer tontinhas, a inteligência destes pequenos insetos não é de menosprezar.

São sociais Harmonizam a vida na colónia, facilitam a construção de uma casa comum, garantem comida suficiente para a geração mais jovem, defendem a colónia e regulam o seu clima;
Sabem comunicar Comunicam entre si através da linguagem da dança – informando as outras abelhas sobre as coordenadas de uma fonte de alimento;
Sabem orientar-se Quando se deslocam entre vários locais, as abelhas conseguem encontrar a rota mais curta – através de tentativa e erro;
Sabem que tempo é dinheiro Concentram a sua energia em colheita de flores que lhe trarão uma recompensa superior em detrimento de outras que reconhecem ser menos gratificantes. Quando não sabem quais flores lhe darão maior retorno, seguem as escolhas de abelhas mais experientes;
Têm boa memória Além de conseguirem lembrar-se de flores, conseguem lembrar-se de ameaças que tenham encontrado. Exibem caraterísticas idênticas a estados emocionais, podendo ser mais otimistas ou pessimistas de acordo com as suas experiências anteriores;
Resolvem tarefas que não lhe são familiares Associam cores com recompensas e resolvem quebra-cabeças. Vários estudos já testaram a capacidade das abelhas de resolver quebra-cabeças, como por exemplo: ter de puxar um cordão preso a uma flor falsa que está por baixo de um prato ou aprender a mover uma bola para uma área específica, onde obtêm a sua recompensa.

Considerações Finais

O mel não é considerado vegano por ser derivado das abelhas e tem claramente o seu propósito na vida destas nossas amiguinhas.

À semelhança do mel existem outras propriedades derivadas das abelhas que não são veganas; como o própolis, o geoprópolis, a cera de abelha ou cera alba, que também são muito utilizados na indústria alimentar e cosmética.

A população de abelhas e insetos polinizadores está em declínio por causas maioritariamente relacionadas com a atividade humana. A sobrevivência da nossa espécie e de todo o planeta depende da ação humana na correção dos erros que tem cometido.

Alguns poderão pensar que o consumo de mel é inofensivo e que a sua exclusão é radical.

Já li blogs que  associam veganismo a uma seita e a descreverem pessoas veganas como pessoas que não pensam por si próprias. Da minha experiência, acontece o oposto.

Não faltam veganos que procuram informar-se e refletir por si próprios, sobre as escolhas que terão impacto menos negativo ou se possível positivo nos animais e no planeta.

Somos humanos e a escolha que a mim me parece mais adequada poderá não ser igual à tua. No entanto, tentemos basear-nos em factos e em evidência, sempre que possível.

Espero que este artigo te tenha elucidado acerca da importância das abelhas na nossa vida e que te ajude a fazer escolhas mais conscientes. 🙂  🐝


Fontes de informação que utilizei para escrever este artigo e onde podes descobrir mais:

Sub-lethal exposure to neonicotinoids impaired honey bees winterization before proceeding to colony collapse disorder (bulletinofinsectology.org)

Bee cognition | Elsevier Enhanced Reader

Bumblebees are going extinct in a time of ‘climate chaos’ (nationalgeographic.com)

Entomology: The bee-all and end-all | Nature

– Scientific topic: Bee health | European Food Safety Authority (europa.eu)

What’s behind the decline in bees and other pollinators? (infographic) | News | European Parliament (europa.eu)


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Cláudia Reis

O meu nome é Cláudia e tornei-me vegana há quatro anos. Tenho licenciatura em fisioterapia, adoro viajar e conversar sobre o corpo humano, veganismo e sustentabilidade. A liberdade é um valor que prezo muito e por isso nada é melhor do que poder contribuir para a liberdade dos animais.

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