Cacau Em Pó É Vegano? Descobre O Lado Negro Do Cacau

Cacau Em Pó É Vegano? Descobre O Lado Negro Do Cacau

Embora possa ser óbvio que alguns produtos sejam de origem animal (como o chocolate de leite), outros costumam ser um desafio maior para quem é novo no estilo de vida vegano.

O cacau em pó é um exemplo e pode exigir que verifiques o rótulo para descartar potenciais ingredientes de origem animal.

O cacau em pó é vegano? Se falamos puramente em cacau em pó, então sim, é vegano. 

O cacau em pó é obtido por meio de um processo no qual os flocos de cacau (nibs) são convertidos num licor de cacau que é pressionado mecanicamente de forma a extrair a manteiga de cacau. Além da manteiga de cacau este processo deixa uma massa de cacau, que faz lembrar um bolo, que é posteriormente moída transformando-se em cacau em pó. Ao longo do processo não são utilizados ingredientes de origem animal.

Neste artigo, vou abordar possíveis exceções a esta regra e mostrar algumas razões que levam alguns veganos a evitar o consumo de cacau.

O Cacau em Pó é Sempre Vegano?

O cacau em pó vem dos grãos de cacau que crescem em vagens penduradas no cacaueiro.

Vagem de grãos de cacau
Imagem de falco via Pixabay

Os grãos de cacau são fermentados e secos antes de serem torrados, triturados e descascados, transformando-se em flocos de cacau – cocoa nibs.

Os flocos de cacau são moídos transformando-se num licor de cacau que é convertido em cacau em pó através de um processo em que é utilizada uma prensa mecânica ou hidráulica a 400-500 bar e a uma temperatura de 90-100ºC. 

Desta forma, parte da gordura (manteiga de cacau) é removida, deixando uma massa de cacau (cacau em pó compactado também chamado de cocoa cake) que é finalmente moída resultando no cacau em pó.

A manteiga de cacau obtida da prensagem é separada, filtrada e utilizada como ingrediente para chocolate ou outros produtos derivados do cacau.

Muitas vezes os mal entendidos surgem porque o cacau em pó e o chocolate em pó são mencionados da mesma forma, dando a ideia de que são o mesmo produto, mas na realidade não são.

Cacau em pó não é a mesma coisa que as misturas em pó que quando adicionadas ao leite quente criam instantaneamente o famoso chocolate quente, que tanto crianças como adultos adoram.

No entanto, é possível verificar pelos rótulos, que a maioria destas misturas são uma combinação de cacau em pó, açúcar, leite e outros ingredientes, como por exemplo vitaminas. Por isso, a maioria destas misturas em pó não são adequadas a veganos.

Por outro lado, o cacau em pó contém apenas sólidos de cacau e uma percentagem pequena de manteiga de cacau, sem ingredientes adicionais. Assim, o cacau em pó puro é sempre tecnicamente vegano.

Processo Holandês VS Processo Broma

Pelo que pesquisei existem dois tipos básicos de cacau em pó: um derivado do processo holandês e outro derivado do processo de broma. Eles podem não ser rotulados de forma específica o que torna a sua distinção um pouco difícil na hora de comprar.

O cacau em pó puro tem um nível de pH entre 5,3 e 5,8 o que significa que é um pouco ácido. O nível de acidez pode alterar o sabor e a forma como o cacau em pó reage com outros ingredientes, bem como a sua capacidade de dissolução, principalmente em água.

Processo holandês vs processo de broma
F_A, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

O cacau em pó derivado do processo broma mantém o nível de pH natural, tendo um sabor mais intenso e uma cor mais clara. Por outro lado, o cacau em pó derivado do processo holandês tem caraterísticas opostas. Os grãos de cacau são banhados numa solução alcalina, o que torna o cacau mais escuro, mais doce e com um pH mais elevado.

No entanto, o processo holandês tem um impacto nas propriedades antioxidantes do cacau, que estão associados a benefícios para a saúde cardiovascular.

Parece que o cacau natural é rico em flavonoides, mas quando os grãos são tratados com álcali, também conhecido como processo holandês, os flavonoides são substancialmente reduzidos. Apesar destas alterações o cacau em pó permanece vegano.

Contaminação Cruzada

Embora este não pareça ser o caso da maioria dos veganos, alguns preferem não consumir alimentos que embora livres de ingredientes animais tenham sido processados em instalações que também lidam com ingredientes de origem animal.

Ou seja, ingredientes veganos podem entrar em contacto com ingredientes não veganos.

Por exemplo, o cacau em pó da marca Vitao pode conter vestígios de ovo e soja.

Num cenário mais perigoso, pessoas alérgicas devem ter cuidado, pois algumas vezes o cacau é colhido em plantações mistas, onde frutas como abacate e nozes também crescem.

Em muitos dos lugares de produção não existem instalações separadas, o que significa que a maquinaria é utilizada para processar os diferentes ingredientes.

Se pretendes evitar o cacau em pó processado em instalações onde ingredientes de origem animal também são manipulados, a melhor alternativa é procurar produtos com certificação vegana e sem aviso de alergénios.

A Maioria do Cacau Não Tem Origem Ética

Infelizmente, muitas empresas que lidam com cacau (como a Nestlé, Mars e Hershey) não fazem necessariamente os seus produtos de forma ética. Embora tenham prometido parar com o trabalho infantil, não podem dizer com certeza que os seus produtos são isentos de cacau proveniente da mão de obra infantil.

De acordo com um artigo/reportagem do Washington Post, a Nestlé apenas consegue rastrear até às fazendas cerca de 49% do seu suprimento global de cacau, enquanto a Hershey e a Mars rastreiam ainda menos que isso.

Assim é possível que muito dos produtos que compramos no supermercado sejam feitos com cacau proveniente de fazendas da África Ocidental que utilizam trabalho infantil para colher o cacau.

Isto não significa que estas empresas estejam a promover ativamente o trabalho infantil, mas o facto de serem incapazes de rastrear e solucionar estas questões é preocupante.

Existe Cacau de Origem Ética?

Existem várias organizações de certificação de comércio justo, fair trade, sendo as mais conhecidas a UTZ, a Rainforest Alliance e a Fairtrade Foundation.

Chocolate de comércio justo.
Alpha, CC BY-NC 2.0, via Flickr

Estas organizações visam tornar a agricultura do cacau mais sustentável para que os agricultores possam prover melhor para si e para as suas famílias.

Geralmente existe um foco no preço, existindo um preço mínimo pelo qual o produto é vendido e um valor premium, o que aumenta ligeiramente aquilo que o produtor recebe face ao que receberia num negócio de comércio livre, free trade.

O valor premium é investido em projetos para melhorar a produtividade e qualidade do cacau, bem como em programas comunitários, como escolas, centros médicos e água potável.

Enquanto a Fairtrade Foundation garante um preço mínimo fixo de 2000$ por tonelada e um valor premium de 200$ por tonelada, outras organizações como a UTZ e a Rainforest Alliance não garantem um premium fixo, sendo este valor negociado entre o produtor e o primeiro comprador. (fonte: confectionerynews.com)

Estas organizações permitem que os produtores recebam um pouco mais, mas ainda assim não o suficiente para os tirar da pobreza.

Além disso, parece que os produtores nas partes mais pobres dos países não conseguem alcançar a certificação fair trade, uma vez que não estão organizados em cooperativas (ou não estão incluídos em nenhuma) e porque para obter e manter a certificação é necessário pagar. Ora isto vai um pouco contra aquele que é o objetivo destas organizações.

Mesmo os produtores certificados não conseguem vender todo o seu cacau nos termos fair trade. Ou seja, uma parte do cacau é vendido nos termos fair trade e a outra nos termos free trade, onde não existe o preço mínimo garantido nem o valor premium. E assim os produtores permanecem em níveis de pobreza extrema.

O tráfico e mão de obra de crianças é um problema que estas organizações tentam minimizar mas que não conseguem controlar na sua totalidade. As auditorias feitas no terreno tendem a acontecer uma vez por ano, o que claramente não permite agir neste sentido.

Em 2010, Fairtrade foi a primeira certificação voluntária a identificar publicamente o tráfico de crianças para práticas de trabalho nas suas próprias fazendas na África Ocidental, o que foi revelado através de auditorias pelo nosso certificador credenciado independente ISO 17065, FLOCERT. Uma década depois, com a pandemia COVID-19 em África, a Fairtrade alertou para um provável aumento nos casos de trabalho infantil em regiões de cultivo de cacau devido ao fecho de escolas e ademais restrições.

Fairtrade International (traduzido)

Ao estar na pobreza, os agricultores não conseguem investir em formas de produzir o cacau de forma efetiva e muitas vezes não conseguem pagar um salário suficiente aos seus trabalhadores, acabando por recorrer a métodos não éticos como desflorestação ilegal, cultivo de plantas ilícitas e utilização de crianças para trabalhar.

Com toda a pesquisa que fiz sobre este tópico, concluí que estas organizações deram um primeiro passo, uma pequena ajuda, mas não solucionam o problema.

Comprar um produto com cacau fair trade não me deixa de consciência tranquila, pois o agricultor  continua na pobreza e é bem provável que alguma criança, proveniente ou não de tráfico, tenha trabalhado na colheita desse cacau.

Parece que comprar fair trade é melhor do comprar free trade, mas está longe de solucionar o problema.

Conclusão

Tecnicamente, sim, o cacau é adequado a veganos.

Alguns veganos são reticentes devido à contaminação cruzada, no entanto, o cacau em si é um ingrediente de origem vegetal. É importante não confundir cacau em pó com chocolate em pó, pois são produtos distintos.

Geralmente o chocolate em pó ou misturas achocolatas contêm leite e outros ingredientes, como a vitamina D3, que geralmente não são veganos. Pelo contrário, o cacau em pó é apenas o cacau em si, e por isso é considerado vegano. 

Prefiro referir-me ao cacau como tecnicamente vegano, porque é factual que a sua origem é vegetal, no entanto a ética por trás da sua produção é um tópico infeliz, dado que a maioria dos agricultores vivem em condições de pobreza extrema e são utilizadas crianças como meio de mão de obra barata, muitas vezes traficadas.

Este é o lado cruel do cacau: numa parte do mundo gerando felicidade e prazer e na outra escravidão e sofrimento.

Como veganos preocupados podemos escolher comprar cacau com certificação de comércio justo, o que ainda assim não elimina os problemas que mencionei anteriormente, ou então, evitar o consumo de cacau.

Será esta a melhor resposta a esta situação? Não sei, mas não consigo ignorar que o chocolate que quero comer é fruto de trabalho árduo de pessoas que estão na miséria e de crianças vítimas de tráfico.

Cláudia Reis

O meu nome é Cláudia e tornei-me vegana há quatro anos. Tenho licenciatura em fisioterapia, adoro viajar e aprender sobre o corpo humano, veganismo e sustentabilidade. O amor que tenho pela natureza leva-me a querer contribuir para a liberdade e bem-estar animal.

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